A exposição Culturas e Criações, dos formandos e formados no curso do Senac, que abriu dia 21 de junho e vai até o dia 06 de julho no terreo da Fundação de Cultura de MS apresentou obras de bom gosto, confirmando a proposta da exposição. Obras dos mais variados tipo e formas e em diferentes contextos, são: telas, corseletes, vestidos, uma video instalação e gravuras mostrando a pesquisa e o material produzido pelos artistas.
Mariana Sena sugou referências do "Cão Andaluz" de Dali e Buñuel para criar seu primeiro vídeo, conclusão de sua graduação, exibido na mostra.
"Eu fiz a pós e eles me convidaram para expor novamente aqui. Fiquei bem feliz, aqui pude sair do armario! E eu sou sempre video, não consigo sair disso, mas aqui também apresento a primeira video-instalação. Meu primeiro video foi o Sub-solo da mente onde, inspirado no surrealismo de Dali e Buñuel, suguei do "Um Cão Andaluz". Já meu video-arte Repetições é inspirado na artecinética do filme O Inferno de Clouzot."
As fotos montagem de Mariana Gomes aborda o universo das pin-ups, através de fotografia e o uso de programas para edição.
" Por ser uma coisa do passado e as mulheres ainda serem vistas como objetos pelos homens, faço essa referência as pin-ups. Eu manipulo a imagem, confecciono a foto pensando nessa luz e depois monto adequando a alguns cenários com referencias da Pop Art"
Utilizando, também, pin-ups como referência, Thyanne Oliveira apresenta vários corsetes cheios de brilhos e formas sinuosas.
"Eu queria que fosse uma coisa sobre sedução e erotismo e pensando nessa sensualidade, surgiu o corset que modela o corpo e tem essa relação de fetiche. Para basear meu trabalho eu lembrei das pin-ups e da Art Nouveau. Tentei focar na forma e nos elementos figurativos também, como as flores, os pavões e esse lado do sinuoso, do burlesco. Também queria que elas fossem divertidas e que a pessoa pudesse tirar sozinha, além dos conceitos de sinuosiade, profusão e geometria que encontrei nas pedras, me inspirei no conto da Branca de Neve mas aquele dos irmãos Grimm original onde não é uma historia infantil da Disney."
Usando a roupa como suporte e o corpo como vitrine Elaine Valdez apresenta sua pesquisa em vestidos utilizando a referência de Conceição dos Bugres e dos discos de vinil.
"Eu tive a oportunidade de conhecer vários campos da arte e isso me abriu muitos caminhos. Nunca pensei em exposição mas aqui eu tô com colegas da minha turma e de outras turmas. Apresentei um vestido feito com discos de vinil, detalhe que muita gente brigou por causa dos discos. O processo de pesquisa durou 4 meses até conseguir o que eu precisava para montar o vestido. E o outro vestido é um homenagem à Conceição dos Bugres, uma referencia de MS mas sinto falta dela na moda. Peguei um vestido que já existia e com a pintura eu transformei ele na Conceição. É interessante que eu já sai com ele e nas ruas as pessoas gostam muito, deperta o interesse mas muitas vezes não conhecem a Conceição. E agora eu to numa pesquisa me baseando nos irmãos Campanas para outros vestidos."
Além das artistas entrevistadas ainda há obras dos artistas: Cid Nogueira Fidelis, Magno
Missirian, Paola Roma e Vívian Calazans Ribas.
A mostra fica exposta de 21 de junho a 6 de julho, aberta a visitas de segunda
a sexta-feira, das 7h30 às 17 horas. A entrada é gratuita. A galeria do
Memorial da Cultura fica na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, na Capital. A
entrada é franca e vale a pena uma parada lá!
O apresentador Cleber Dias conduziu o 38° Sarau dos Amigos que apresentou a música do grupo Guavira Elétrica e dos cantores Rodrigo Nantes e Gabriel , Leandro Ávila, Brukka , Cleber Abrero e Zé Geral. O teatro também estiveram presentes nas intervenções de Yago Garcia e no “cotidiano” do Núcleo do Sarau. Confira um pouco do que rolou.
Localizado na rua Elvira Matos de Oliveira, 927, bairro Universitário o Sarau dos Amigos acontece toda última quinta feira do mês. E apenas com um quilo de alimento, que é doado aos Vicentinos da Paróquia santa Rita de Cassia, você pode divertir-se com arte e informação!
Conversamos com alguns artistas que passaram por lá!
Tom Barbosa
"Eu trabalho há algum tempo com a temática dos malabaristas de rua. Fui premiado no ano de 2010, com essa temática, no Salão de Arte de Campo Grande. Em 2009 fui premiado com pintura de papelão no Estado e no Brasil. Hoje estou com essa temática dos Saltimbancos Trapalhões. É uma lembrança de infância, eu sou fã deles! Então eu peguei, do filme dos Trapalhões “Os Saltimbancos”, todas essas fotos e reproduzo em pintura, coloco um pouco da minha imaginação
e adapto alguma coisa. Por que não é sempre que uma foto dá uma boa pintura. Então você precisa trabalhar um pouco em cima! Na verdade eu quero produzir 20 telas desse tema, por que terei uma mostra na Morada dos Baís, em Maio!"
Carlos Luz
"Esse projeto se chama memória fonográfica de Mato Grosso do Sul, nós catalogamos e digitalizamos todo o acervo de Mato Grosso do Sul. Das músicas gravadas em Mato Grosso do Sul desde 1950 até atual e isso envolve todos os músicos que por aqui passaram. A princípio era do Estado único, era Mato Grosso. Então o projeto iniciou com uma pesquisa geral nos dois “Mato Grosso” e começamos a afinar esse processo, encontrando uma riqueza muito grande da música vinculada à Mato Grosso do Sul! O projeto, hoje, está restrito aos músicos de Mato Grosso do Sul. A década é de 50 para cá, por quê a industria fonográfica de MS e do Brasil iniciou-se na década de 50. E quem gravou na década de 50: Délio e Delinha, Franquito, Bete e Betinha que o pai era maestro, eles já gravavam naquela época! Então são artistas sulmatogrossenses, alguns estão vivos, outros já se foram, mas o propósito do projeto é que todas as pessoas de Mato Grosso do Sul e do Brasil tenham acesso a essa cultura musical. A idéia é disponibilizar num site, em terminais de consultas, universidades onde a pessoa poderia ver e conhecer o artista, ouvir o artista. Não poderia baixar e nem copiar música, mas ele poderá ouvir o artista, conhecer as letras do artista e a parte literária vinculada à música."
O projeto é licenciado pela Lei Rouanet e precisa de patrocinio. Contato com o Carlos pelo email: carlosluz@bol.com.br! E pra saber um pouco mais sobre o projeto: overmundo
Mauro Yanaze
Meu trabalho é com cerâmica só que em alta temperatura! Queimo a base de 1.230 a 1.250 graus. A matéria prima é de São Paulo, não encontra aqui. Poderia usar a de Rio Verde ou de Coxim, mas são para baixa e eu trabalho com alta. A exposição que está no Marco é junto com um grupo de São Paulo de artistas plásticos que me convidaram para a exposição do Aluga-se. Que corre Brasil todo e fora também!
Elis Regina
"Esse projeto é uma pequena amostra, um esboço do que eu comecei a fazer. A minha idéia é voltar à aldeia e aprofundar um estudo. Da questão da imagem, sempre dialogando, com a questão da criança com a terra. A infância indígena. A gente tem um mundo totalmente industrializado com milhões de brinquedos, mas qualquer criança, se você der um pedaço de pau, uma garrafa, ele vai brincar. (Eu posso até estar falando besteira, preciso estudar um pouco isso), mas se não tem um aparato tecnológico, e mesmo que tenha, a criança é capaz de se divertir. Então eu acho que infância independe do contexto, da etnia, da raça. Crianças são crianças! Eu quero mostrar um pouco essa coisa lúdica, mas sempre trabalhando com essa coisa da luz, do contraste, da terra, essa relação. Por que é muito forte a relação que essas crianças, que o índio tem com a terra! E isso é de berço, as crianças passam a maior parte do tempo na terra, e isso é uma coisa muito bonita! E a terra vermelha, algumas pessoas me perguntaram por que não faz preto e branco? Por que se eu abstrair a cor eu vou abstrair essa riqueza que é a terra vermelha e que é essa relação que eu quero mostrar das crianças com a terra."
Ariadne Cantú
A escritora lançou o livro infantil O Planeta dos Carecas.
"O livro é uma história para trabalhar com a questão das diferenças, das crianças que tem câncer e perdem o cabelo, no curso do tratamento. E basicamente é a história de um planetinha imaginário onde tudo mundo é careca e quem é doente cresce cabelo por conta do remédio que toma. E o processo de criação do livro foi muito rápido. O surgimento da historinha em si, ele brotou depois que eu fiz uma visita para as crianças e achei que trabalhar da forma inversa, o conceito da diferença, iria tornar mais fácil todo esse processo.
E depois me aproximando mais eu soube que é um processo até comum, de gente que tem na família criança com câncer e raspa o cabelo. Soube da história de pai que raspa o cabelo para mostrar ao filho que está tudo normal, que o cabelo não é essencial, que o cabelo vai nascer de novo. E os desenhos foram feitos pela artista Andréia Duarte Oliveira que conseguiu transmitir dentro da história aquilo que eu concebi e ela disse que foi dificl colocar os personagens com expressão sem os cabelos. Dizem que os índios nos reconhecem pelos cabelos, para eles somos todos iguais a diferença fica por conta dos cabelos! E eu espero ter atingido o objetivo de, tratando de um tema tão difícil, trazer uma mensagem alto-astral, alegre. Que criança precisa de: começo, meio e fim e se não tiver final feliz não serve!"
Campo Grande exibiu sábado dia 05 de fevereiro o curta-metragem “Ela veio me ver”. A história de dois adolescentes em seu primeiro encontro. Filmado e produzido em Campo Grande, estreado na Mostra de Cinema de Tiradentes(janeiro 2011), selecionado para o Chicago Latino Film Festival e, esta semana, em turnê nacional no 3° Festival do Júri Popular! Fomos atrás do Essi Rafael, idealizador do curta, para um bate-papo rápido!
Por que o uso do cinema?
Eu acho que o cinema te transporta, é um lugar que eu me sinto bem. Desde criança, você entra no cinema e sente emoções que às vezes na vida, sua vida cotidiana, você não sente. Eu acho que o cinema é uma expressão muito forte, é a vida concentrada. O cineasta e toda a equipe trabalham para nessas duas horas condensar elementos muito importantes da vida. E eu acho que no cinema tem um sentimento forte! Eu não esqueço, de quando criança, você vai, você fica impressionado e quer voltar toda vez, tem uma envolvimento emocional muito grande que você não encontra na vida cotidiana.
Como foi o processo de produção do Curta “Ela veio me ver”?
Quando a gente passa pro lado de trás da produção é tudo mais trabalhoso, né? Não tem nenhum segredo. É relativamente simples, mas é trabalhoso você tem que correr atrás de uma série de coisas. Começando pelo, no caso, dinheiro se você quer trabalhar com uma equipe maior, com uma estrutura maior. Conseguir dinheiro não é fácil e quando você consegue às vezes é pouco, todo mundo ganha mal e tem toda a questão: que você lida com gente, com uma equipe grande. Você tem que aprender a lidar com as pessoas. E até como crescimento individual! To no começo de carreira, eu tenho muita coisa para aprender como todo mundo aqui. Tenho muito a aprender. Então é um processo bem complicado, cinema por ser uma arte coletiva assim que junta várias artes, que você trabalha com som, com imagem, com música, com atuação, teatro, é muita coisa. Então tem uma dificuldade muito grande de juntar tudo isso e fazer uma obra bacana que tenha algum sentimento disso tudo mas.. é isso aí se você gosta você tem que correr atrás. Foi difícil, dois anos de produção, mas é isso aí o tempo médio de produção, no Brasil, é por aí mesmo!
Com a exibição do cinemark, em Campo Grande como você vê a relação do cinema e exibição aqui. O que você acha de toda a situação do cinema agora aqui, especificamente, e no Brasil?
É complicado! A situação do cinema não está numa época legal. Aqui em Campo Grande, especificamente, o Cinecultura fechou, e já não era muito bem freqüentado. Também já diz muito da situação, mas a verdade grande parte do cinema brasileiro as pessoas desconhecem. O que é uma pena! Eu fiquei muito feliz com a exibição no Cinemark, por que teve um comparecimento grande, mas é um público bem especifico! Realmente é um público bem especifico, voltado e com interesse bem particular de cultura. Não é aberto pro grande público, vamos dizer assim. Isso ainda está bastante deficiente. O nosso nicho, assim, onde a gente pode por o filme, é esse local, mais especifico mesmo: festivais de cinema, freqüentados por pessoal da área. Eu não sei, acho que ainda tem que melhorar muito! Se você for ver o que tá em cartaz não tem muita opção nacional, e tem filmes muito bons brasileiros. Também não é fácil se você olhar ao redor do mundo, na verdade a questão é complexa em todo lugar! Se for nos Estados Unidos também é assim, se for na Europa. Então não adianta ficar penalizando-se, enquanto realizador você tem que tentar fazer uma obra que te satisfaça, que você tenha orgulho, e que você tente passar o que você pode passar, se você puder avançar em alguma coisa, ótimo! Mas a gente tem que jogar com o que você pode fazer. Se dá pra passar aqui no Cinemark, vamos passar, se dá pra passar nas escolas, vamos passar nas escolas. Faz o possível, mas não é exatamente uma situação boa!
Aqui em campo grande, tenho visto surgir bastante cineclubes, você pretende passar em cineclubes? E como fazer essa distribuição, não só desse, mas dos próximos curtas?
Os cineclubes. É uma alternativa super viável, acho que é uma das grandes opções que a gente tem de trabalhar. Com certeza, vamos passar em cineclube também e a gente tem o Fora do Eixo que é uma organização que está surgindo agora, que tem toda uma rede de cineclubes, que eu acho que está crescendo bem. DF5. É exatamente. E poxa é um caminho super viável que você bota o filme em circulação por vários cineclubes pelo Brasil. Enfim eu acho super bacana participar de cineclube.
O filme trata de um relação adolescente mas não é só para adolescente, qual seu olhar sobre o filme?
É sobre adolescente! É realmente, você está me confundindo. Eu quis fazer assim a gente tem uma certa ingenuidade na adolescência, mas essa ingenuidade traz uma certa dor também né? É um jogo que a gente está descobrindo certas coisas e também começa a descobrir a dor, a gente fica machucado. Com certos sentimentos. Parecem tão puros e ingênuos. Para mim, era muito importante retratar de uma forma, sei lá, que dê pra sentir uma alma ali, uma veracidade, essa situação do adolescente. Assim, você quando tem um sentimento, você gosta de alguém, você não sabe, exatamente, o que fazer com ele, o que transformar, o que fazer desses sentimentos. Por que você vê as referências de televisão, tudo parece que é super simples né? E tudo ao redor! E aí chega na hora, você não entende mas por que é tão difícil?! Eu não sei. Eu acho que seria um pouquinho de angustia junto com essa ingenuidade. A ingenuidade trazendo também um pouquinho de dor. Isso ae. Do ponto de vista da historia.
Por que filmar em campo grande?
Ah, por que Campo Grande é minha segunda cidade, eu sou de Aquidauana, mas Campo Grande sempre foi a cidade que ia fim de semana, sempre era. Eu acho assim filmar em casa tem um sabor especial. Você pode, acho que essa historia pode tranquilamente passar em qualquer cidade, assim, não vai alterar os rumos da estória. Fazer cinema em casa tem um gosto bastante especial dá um orgulho. Poxa! É onde você se sente mais confortável, né? São ruas que eu realmente passei na minha vida, são coisas, locais que eu conheço eu vivi. Para mim como realizador dá um gostinho a mais, mas faz diferença!
E algumas palavras pra quem está começando e pra quem gosta.
Primeira coisa que você tem que ter é perseverança. Não! O primeiro de tudo: você tem de gostar, né? Gostando muito você tem que ser muito paciente, viu? Às vezes não dá certo de cara. Até você entender mais ou menos como é que funciona o mundo de uma forma razoável, que você pode ter uma autonomia. O que fazer. Por que a primeira coisa é saber o que fazer. Não é tão fácil quanto parece! A gente diz “ah vou fazer filme”, mas não é exatamente bem assim, né? Então a agente vai se estruturando aos poucos, a recomendação maior é ter perseverança, ter senso crítico e procurar melhorar sempre. E você vai vendo os meios de exibição, que seja Youtube, o que for mais condizente com o seu estado atual e o que você pode fazer no momento. Se você tem uma camerazinha: filmar e botar na internet,faça isso! Se você tem uma condição de fazer uma coisa um pouquinho maior: faz um pouquinho maior. Mas é isso ai! Sempre com vontade, perseverança, acho que é a única coisa que dá pra falar!
Em janeiro estive no MARCO e pude ver a exposição QUEIME O CASTELO de Maíra Espindola. São quadros surrealistas e cheios de subversão sobre contos e histórias que há muito tempo fazem parte do nosso imaginário. A exposição vai até dia 27 de fevereiro no MARCO, com exibição gratuita.
Agora estive com ela, e numa entrevista informal, Maíra falou um pouco da exposição e seu processo criativo!
Segue a entrevista em mp3 e em texto para uma maior acessibilidade!
ps. perdão pela voz e inexperiência do entrevistador...
O texto passou por uma correção gramatical!
Quando tempo pra compor e finalizar? Fale um pouco do processo de produção.
Bem, eu comecei a produzir, mas não sabia exatamente o que ia ser. Não tinha nome, não tinha uma cara, a primeira tela foi a Mandratana e a segunda, o Barba Azul. Percebi que estava estudando contos de fadas, que elas eram parte desse estudo e aí “entrei numas”. Comecei a pesquisar mais, a brincar mais, principalmente com conto de fadas, que me são interessantes até hoje. Foram uns três meses, basicamente, para produzir quase tudo, e algumas peças foram aparecendo depois. Então, do início até o fim da produção, levei uns cinco meses, e – pasme! – a peça mais difícil foi a última, foi a que demorou mais tempo: “O Príncipe Encantado”. Tendo eu 31 anos, solteira, discutindo o amor, fica bem claro o porquê (risos).
Quais técnicas você utiliza e por que as escolheu?
Na verdade, coloquei em quase todas as peças colagem e pintura digital, que foi o que eu comecei a produzir, era a base de tudo. Comecei a capturar imagens do Google, de flickers pessoais e a pilhar, mesmo, como pirata: pegar, costurar, cortar, colar, pintar, redesenhar. Cada obra deve ter em média 20 fotos, que ficaram irreconhecíveis, duvido que alguém reconheça de onde vieram. Chamei a isso reciclagem visual, porque a gente sabe que o universo da internet não é um universo físico exatamente. E cada vez mais a gente produz essas imagens, cada um de nós, mas ninguém as está reciclando. Tenho a impressão de que isso vai dar um bug, nessa dimensão louca onde essas imagens ficam, e tudo vai explodir se a gente não começar a reciclá-las, se só ficarmos fazendo, produzindo novas coisas.
Você é uma artista que passeia por várias áreas: canta, dança, representa, sapateia e pinta. Como isso influencia suas obras?
Não faço a mínima idéia (risos). Acho que o artista não tem apenas uma forma de agir, ele tem uma matéria, qual seja a música, a imagem, a qual ele domina ou não. Às vezes eu produzo muito cinema, mas cinema me encanta, é tudo que me alimenta, eu gosto de historias, eu gosto de narrativa, então, eu faço uma exposição que se chama “Queime o Castelo”, sobre narrativas, sobre contos de fadas. Cada obra parada, um quadro parado, conta uma historia que você já ouviu – tudo bem, pode-se dizer que é uma releitura louca, alucinada, de Maíra, que na cabeça de Maira tudo é louco, mas, necessariamente, eu não sei onde os pontos são dados, qual é o tanto que eu entenda e goste de cinema ou o tanto que eu goste, entenda e produza música ou imagens. Hoje em dia, ninguém é mais artista plástico, todo mundo é designer gráfico, então, não sei onde está o ponto, mas acho que isso tudo se interliga.
Irmãos Grimm, bonecas, fadas: qual a relação dos contos de fadas com a técnica de colagem digital?
Acho que é algo subversivo. Uma atitude extremamente pirata minha de pegar e recontar histórias antiquíssimas. É obvio que já que foram pilhadas por outros, já foram modificadas, mas depois de um tempo elas se cristalizaram, então a gente conhece a história da Chapeuzinho Vermelho, da Bela Adormecida, e inclusive já relaciona as imagens desses contos de fada a filmes da Disney ou qualquer coisa parecida. Só que essas imagens são extremamente sinistras, esses contos de fadas são extremamente sinistros. O que eu quis fazer – e a técnica, necessariamente, nem é a questão – foi dar esse recorte de que hoje em dia somos uma geração extremamente prolífera e polifônica, tudo acontecendo ao mesmo tempo agora, muita imagem, e, ao mesmo tempo, no fundo da gente, ainda temos aqueles valores infantis, esses mesmos contos de fada ainda nos fazem sentindo. O príncipe encantado, aquele, que é a peça mais difícil da exposição, que me é um assunto muito importante, relevante ao homem pra mim, é aquele homem que eu espero e me foi ensinado. Ao mesmo tempo, eu o recorto e pico e remonto, porque é o meu príncipe encantado. Mas, ainda assim, ele faz parte de outros universos de príncipe encantado, de qualquer uma... ou um (risos).
O folheto da exposição vem assinado por uma amiga sua, Moema. Qual é a forma com que seus amigos a influenciam e como isso aparece – se aparece – na sua obra?
Uso muito meus amigos, normalmente – não necessariamente nesta exposição –, inclusive como imagem. Faço a mesma coisa: capturo fotos deles, pico e crio outras coisas, mas a Moema é um pedaço de mim, já não é mais nem amiga nem família: é um pedaço meu que está lá em Porto Alegre. Talvez ela seja a bailarina dos meus sonhos – meus amigos são meus contos de fadas também. Eu crio e recrio mitos, e eles mesmos recriam também mitos a partir de mim. No caso dessa exposição, está claro que é isso, mas eu não saberia dizer onde eles estão aqui neste momento, nestes quadros.
O sobrenome Espíndola é conhecido por sempre estar na área artística, isso a influencia de alguma forma?
Às vezes influencia para dar “carteirada”, né? (risos). Como suporte familiar nada, como referencia artística, tudo. O Humberto, por exemplo, é artista plástico fantástico. Ele me influenciou bastante, inclusive, percebi com o tempo que muitas peças que produzi têm uma referencia dele, lá distante, porque eu releio também. Ele não é meu “mestre”, eu não sou uma seguidora dele, eu simplesmente capturei alguma coisa dele ali que me é importante, algo que eu acho belo ou uma técnica que eu admiro, afinal, ele produz imagens com maestria. No e no caso dos outros, sou fascinada por algumas letras da Alzira e do Celito, de uma simplicidade tamanha que chega a ser uma faca no estômago, pois criar algo simples, sintético, que faça sentido pra qualquer um que entenda a língua é muito difícil. E ainda não banalizar, não deixar o texto tosco, isso aí é muito mais difícil, e nisso eles me influenciam, sim, não sei também exatamente de forma aqui nessa exposição. Talvez, se o Celito vier aqui, olhar e falar: “Olha, eu tô aqui! Tá vendo?”. Talvez ele veja, eu não vejo (risos). Ainda!
Sua exposição fica na sala onde ano passado foram expostos os quadros da Ligia Baís. Expor na mesma sala que ela diz alguma coisa pra você?
Eu acho que ela era subversiva também, extremamente subversiva, uma mulher rica, transformar-se numa artista plástica naquela época, não seguir os padrões da elite com a qual ela convivia e à qual pertencia. Acho que me identifico só nisso. Talvez também certa idolatria que mantenho. Mas eu tenho mais a ver talvez com o trabalho da Frida Kahlo, que lembra o de Lídia, mas com outra técnica. Às vezes é a mesma temática, mas Lídia era extremamente católica, coisa que não me faz muito sentido, é muito cristão, blábláblá, muito Jesus. Não que Jesus não seja um ótimo personagem, eu adoro Jesus, mas ele era um rebelde, e em Frida Kahlo isso me faz mais sentido. Mas Lídia Baís realmente foi a nossa vanguardista, isso não se pode negar, e era muito subversiva.